Agência de notícias
Publicado em 28 de fevereiro de 2025 às 06h57.
Quando Israel e o Hamas concordaram com um cessar-fogo de seis semanas em janeiro, havia esperanças de que evoluísse para uma trégua mais longa e estável. Agora, as esperanças estão diminuindo.
Ambos os lados se acusaram de violar os termos do acordo vigente, que permitiu a troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos. No fim de semana, Israel adiou a liberação de centenas de prisioneiros, protestando contra a forma humilhante como o Hamas havia desfilado com os reféns antes de entregá-los.
Há apenas alguns dias para o atual cessar-fogo expirar, no sábado, as partes ainda não começaram as negociações para uma extensão do acordo.
Steve Witkoff, o enviado do Oriente Médio da administração Trump, disse que retornaria à região na última quarta-feira para pressionar por uma nova trégua.
Embora uma breve extensão seja possível, a probabilidade de um acordo de longo prazo — evitando o reinício dos combates — parece remota.
Os dois lados têm pré-condições que dificultam alcançar uma resolução permanente. Os líderes de Israel dizem que só terminarão a guerra quando o Hamas não exercer mais poder militar e político em Gaza. O Hamas indicou que poderia desistir de algumas responsabilidades civis, mas seus líderes, na maioria, descartaram a ideia de desarmamento, pelo menos em público.
O acordo firmado nos últimos dias da administração Joe Biden permitiu um cessar-fogo inicial de seis semanas, que termina em 1º de março. As partes concordaram em usar esse tempo para trocar, gradualmente, cerca de 1.500 prisioneiros palestinos em cadeias israelenses por 33 reféns capturados pelo Hamas e seus aliados durante o ataque que iniciou a guerra em outubro de 2023.
As partes deveriam usar as seis semanas para negociar os termos de uma trégua permanente, que começaria em 2 de março. Esperava-se que essas negociações se concentrassem em quem deveria governar Gaza pós-guerra, além da liberação de outros 60 reféns aproximadamente.
Embora tenha sido interrompida por algumas dificuldades, a maioria das trocas ocorreu conforme o planejado. No entanto, as negociações para a segunda fase não começaram de fato — sob os termos do acordo de janeiro, deveriam ter terminado no último domingo.
O fracasso se deve, em parte, ao fato de que, segundo o acordo, o cessar-fogo só pode ser formalmente renovado se ambas as partes concordarem em terminar a guerra. Mas Israel e Hamas têm visões tão diferentes sobre Gaza pós-guerra que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não quis sequer reiniciar as negociações.
Fraco e isolado, o Hamas evitou endurecer o discurso e retomar as hostilidades, embora o grupo tenha tornado a guerra provável ao se recusar a se render.
Em contraste, Netanyahu afirmou, no domingo, que Israel estava pronto para retomar os combates se o Hamas não se desarmasse voluntariamente. Em um discurso para soldados, Netanyahu disse que só estava aberto as negociações sobre os termos da rendição do Hamas.
Muitos israelenses querem que o primeiro-ministro concorde com um cessar-fogo prolongado para libertar os reféns restantes, mesmo que isso signifique manter o Hamas no poder. No entanto, os aliados da coalizão de direita de Netanyahu consideram a derrota do Hamas uma prioridade nacional maior e estão pressionando-o para reiniciar o conflito.
O exército israelense já se preparou para uma nova e intensa campanha em Gaza, de acordo com três oficiais de defesa que falaram sob condição de anonimato.
Os oficiais disseram que as novas operações incluirão como alvo os oficiais do Hamas que desviam suprimentos de ajuda destinados a civis, assim como a destruição de prédios e infraestrutura usados pelo governo civil administrado pelo grupo.
Embora o plano ainda precise ser aprovado pelo gabinete israelense, dois dos oficiais disseram que acreditam que apenas o presidente Trump poderia dissuadir Netanyahu de recomeçar a guerra.
O presidente fez várias exigências conflitantes nas últimas semanas, desde o pedido por paz sustentável, passando pelo retorno da guerra à expulsão dos dois milhões de residentes de Gaza. O sinal mais claro da administração Trump por uma solução foi buscar a extensão temporária do cessar-fogo, talvez envolvendo mais algumas trocas de reféns por prisioneiros.
O enviado de Trump ao Oriente Médio, Steve Witkoff, disse que retornaria à região na última quarta-feira para tentar prorrogar a primeira fase da trégua. Ele afirmou que passaria cinco dias visitando Egito, Israel, Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita para conseguir apoio da região pela extensão da trégua. Witkoff também disse acreditar ser possível chegar a um acordo mais longo.
Não necessariamente. O acordo inicial dizia que a "cessação temporária das hostilidades" poderia ser mantida além do prazo de 1º de março, desde que Israel e Hamas ainda estivessem negociando os termos de um cessar-fogo permanente. Isso permite alguma flexibilidade: se as partes voltarem às negociações para uma extensão formal, o cessar-fogo pode tecnicamente continuar, mesmo que as conversas ainda estejam longe de uma resolução.
Ainda assim, haverá menos garantias de que o cessar-fogo não colapse. Durante o cessar-fogo inicial, as partes estavam motivadas a sustentar o acordo, mesmo com várias crises, pois a cada semana que passava permitia a troca de mais prisioneiros. Esse arranjo beneficiava tanto Israel quanto o Hamas — cada refém libertado trouxe alívio para a população israelense, enquanto o prestígio do Hamas entre os palestinos aumentava a cada prisioneiro liberado.
Essas trocas devem terminar na quinta-feira, com a liberação de mais quatro israelenses, provavelmente prisioneiros que já faleceram, por centenas de palestinos. A menos que novas trocas sejam organizadas, tanto o Hamas quanto Israel terão menos motivos para manter o cessar-fogo.
Há uma preocupação particular sobre o que acontecerá depois de 8 de março.
No acordo de janeiro, Israel concordou em retirar suas forças até essa data da fronteira Gaza-Egito. No entanto, Netanyahu disse explicitamente no ano passado que Israel nunca se retiraria dessa área, conhecida em Israel como o Corredor Filadélfia, o que gerou previsões de que ele violaria os termos do cessar-fogo.
Se essas forças não se retirarem, os oficiais de defesa israelenses dizem que esperam que o Hamas lance foguetes contra Israel, dando a Israel um pretexto para retaliar.