Repórter
Publicado em 28 de fevereiro de 2025 às 07h14.
Última atualização em 28 de fevereiro de 2025 às 07h15.
A China anunciou nesta sexta-feira, 28, que tomará "todas as contramedidas necessárias" para "defender seus direitos e interesses legítimos" após a decisão dos Estados Unidos de dobrar para 20% as tarifas sobre produtos chineses a partir de 4 de março.
A medida foi anunciada pelo presidente Donald Trump, que argumenta que a China não fez esforços suficientes para conter a entrada de fentanil nos EUA. O opioide sintético, que tem provocado uma crise de saúde pública no país, também levou Washington a impor tarifas de 25% sobre o México e o Canadá, sob a alegação de que esses países facilitam o tráfico da substância.
Em um comunicado, o Ministério do Comércio chinês declarou que a China "se opõe firmemente" às novas tarifas, classificando-as como uma violação das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e uma ameaça ao sistema de comércio global.
"A China é um dos países com as políticas de controle de drogas mais rigorosas e abrangentes do mundo e tem cooperado ativamente com diversos países, incluindo os Estados Unidos", afirmou o governo chinês.
A nota ainda criticou o que chamou de "transferência de culpa" por parte dos EUA, alertando que as tarifas não resolverão a crise do fentanil e, além disso, "aumentarão o fardo sobre empresas e consumidores americanos", podendo prejudicar a estabilidade da economia global.
As novas tarifas elevam a tensão entre as duas maiores economias do mundo, reacendendo a guerra comercial iniciada no primeiro mandato de Trump (2017-2021). Durante esse período, os EUA impuseram tarifas sobre cerca de US$ 370 bilhões anuais em produtos chineses, levando Pequim a responder com taxações sobre exportações americanas e restrições a empresas como a Google.
Nesta sexta-feira, a bolsa de Hong Kong registrou queda de 3,9%, seu maior declínio desde outubro, enquanto o índice CSI 300 da China caiu 1,9%, refletindo temores sobre o impacto econômico das novas tarifas. O Banco Central da China interveio para estabilizar a moeda, com o yuan oscilando próximo de 7,29 por dólar.
O economista Chang Shu, da Bloomberg Economics, alertou que a paciência de Pequim pode estar chegando ao fim. "Trump pode estar testando sua sorte", afirmou, sugerindo que a China pode adotar uma postura de retaliação mais dura, intensificando o conflito comercial.
O Ministério das Relações Exteriores da China reforçou a posição do governo, condenando a pressão e coerção americana. O porta-voz Lin Jian declarou que o fentanil é um "problema dos EUA", que Washington está utilizando para justificar medidas contra Pequim.
"Pressão, coerção e ameaças não são o caminho correto para negociar com a China. O respeito mútuo é a premissa básica", afirmou Lin.
Apesar da escalada nas tensões, Pequim ainda busca uma solução diplomática. O vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, conversou recentemente com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, marcando o segundo contato de alto nível desde que Trump retornou ao cargo. O governo chinês também mantém negociações militares com Washington, tentando evitar uma deterioração ainda maior da relação.
Pequim já sinalizou que pode retaliar as tarifas americanas reimpondo taxas sobre produtos dos EUA, ampliando controles de exportação de minerais estratégicos e intensificando investigações contra gigantes da tecnologia americana.
A estratégia de Trump também pode impactar a economia americana. O Federal Reserve (Fed) indicou que as tarifas podem aumentar os preços das importações nos EUA, elevando os custos para consumidores e empresas.
Enquanto a tensão cresce, Pequim busca manter a calma. O presidente Xi Jinping convocou uma reunião com sua equipe econômica para discutir medidas de estímulo, que podem incluir investimentos em tecnologia e consumo interno para compensar os efeitos das sanções.
A menos que um acordo seja alcançado, a guerra comercial pode se aprofundar, com novas retaliações da China já na próxima semana. As tensões também devem influenciar a reunião do Congresso Nacional do Povo da China, onde Xi Jinping apresentará os planos econômicos para 2025.
*Com EFE e AFP