(Autor/Exame)
Vice President of Corporate Education da Exame
Publicado em 26 de março de 2025 às 15h22.
O SXSW 2025 deixou uma mensagem clara: o futuro não será construído apenas por tecnologias emergentes, mas pela forma como escolhemos conectá-las à criatividade e às relações humanas. A fusão entre tecnologia, criatividade e conexões humanas não foi apenas pano de fundo — foi a essência do evento.
Na semana passada, tive a oportunidade de conduzir um download do SXSW aqui na EXAME, reunindo líderes para discutir os grandes destaques e provocações que vieram de Austin. A seguir, compartilho seis pontos-chave que merecem atenção.
Entre biotecnologia, inteligência artificial e computação quântica, novas possibilidades estão surgindo em velocidade exponencial. O SXSW mostrou que estamos abrindo portas para uma realidade que até pouco tempo atrás seria classificada como ficção científica.
A computação quântica destacou-se como uma das principais tendências. Como definiu Arvind Krishna, CEO da IBM: "A computação quântica é como álgebra usando esteróides. Ao invés de determinística, ela vira probabilística e consegue resolver contas que o computador simples não consegue." Embora poucos saibam explicá-la em detalhes, ficou evidente que sua chegada promete reconfigurar o que entendemos por capacidade computacional.
Mas no meio de tanta disrupção tecnológica, o que nos faz humanos ainda é — e continuará sendo — o que mais importa.
Apesar de vivermos em um mundo hiperconectado, os dados apresentados por Kasley Killam são alarmantes: 1 em cada 4 pessoas se sente solitária, e 20% dizem não ter com quem contar. A solidão, tema presente já na abertura do festival, foi apontada como um dos principais riscos sociais desta década. Saúde social não é mais apenas uma pauta emocional, mas um pilar estratégico para empresas, líderes e governos.
Como destacou Esther Perel em sua palestra: "A qualidade dos nossos relacionamentos define a qualidade da nossa vida." Este insight reverberou através de várias trilhas do evento, conectando temas aparentemente distintos como tecnologia, liderança e saúde mental.
Mesmo com o avanço da IA, a essência da liderança segue sendo profundamente humana, como destacou Brené Brown. Segundo ela, a IA não substituirá emoções humanas como empatia e coragem. Cabe aos humanos desenvolver essas qualidades, pois elas se tornarão ainda mais valiosas.
Coragem, empatia, escuta ativa e presença seguem sendo habilidades críticas. Mas isso não basta. Segundo Amy Webb, qualquer líder do futuro precisará também de fluência digital e domínio de tecnologias emergentes. O desafio é claro: formar líderes ambidestros, que conciliem sensibilidade humana com capacidade de inovação tecnológica.
A era dos modelos passivos ficou para trás. O que começa a ganhar força são os agentes autônomos de IA, que não apenas respondem, mas tomam decisões e executam tarefas complexas sem intervenção humana. Eles já são capazes de prever comportamentos, agir com base em contexto e colaborar entre si.
Ian Beacraft destacou em sua apresentação por que tantas empresas falham ao adotar a inteligência artificial: "Em vez de otimizar processos antigos com IA, as empresas precisam pensar em transformação real, reimaginando como trabalham, aprendem e criam valor."
Um dos insights mais impactantes veio quando ele afirmou que "o prazo de validade das habilidades está encolhendo. Antes, uma habilidade durava 30 anos. Hoje, 2,5 anos. Em breve, 6 meses. Se você não está sempre aprendendo, está ficando para trás."
Uma das discussões mais fascinantes do SXSW 2025 foi sobre a ciência da longevidade. Pesquisadores já conseguem reverter a idade celular em testes com animais. A ideia de que o envelhecimento é apenas desgaste está sendo substituída por uma nova visão: o envelhecimento seria, na verdade, uma perda progressiva de informação biológica.
Com o reset biológico, cientistas já reverteram o envelhecimento em ratos e restauraram a visão em animais cegos. Terapias genéticas e novos medicamentos prometem reprogramar células humanas no futuro, potencialmente estendendo a vida humana para 120-150 anos. Entretanto, a qualidade de vida nesse período estendido se mantém como o verdadeiro desafio.
Esta mudança de paradigma poderá revolucionar a medicina — e, consequentemente, a forma como planejamos nossas vidas.
Com 99% do conhecimento público já processado pelas grandes IAs, o verdadeiro diferencial passa a ser como cada pessoa ou organização codifica seu próprio conhecimento. A era da informação abundante exige curadoria, personalização e inteligência estratégica.
"A nova guerra será pela capacidade de aprender rápido." Empresas agora querem quem aprende, aplica e gera impacto rapidamente. Não basta saber, é preciso executar.
Conforme destacou Ian, a era do "Creative Generalist" chegou. O novo profissional não é só especialista nem só generalista. Ele combina aprendizado acelerado, criatividade e adaptabilidade para gerar valor no mundo empresarial.
Ir a eventos como o SXSW é sair da zona de conforto para expandir repertório e imaginar futuros possíveis. E imaginar não é um exercício criativo qualquer — é um ato estratégico.
Como disse Rohit Bhargava: "O único futuro que podemos criar é aquele que conseguimos imaginar." Complementando este pensamento, Tracee Worley alertou: "Se não imaginarmos futuros diferentes, ficaremos presos em versões recicladas do passado."
Se imaginamos um futuro de crises e medo, tomamos decisões baseadas nisso. Mas se enxergamos oportunidades e conexões, moldamos um amanhã diferente.
O desafio das lideranças, das marcas e das organizações não será apenas acompanhar a tecnologia, mas responder com intencionalidade, profundidade e conexão humana. As marcas que souberem fortalecer conexões entre pessoas terão mais impacto e relevância.
Não basta avançar tecnologicamente – é preciso que esse avanço aconteça de forma integrada, repensando o papel das empresas diante de desafios como o isolamento digital e a crise da solidão.
Esta é a mensagem mais poderosa que o SXSW 2025 nos deixou: a convergência entre tecnologia e humanidade não é apenas desejável — é essencial para construirmos um futuro que valha a pena ser vivido.
Bruno Leonardo é Vice-Presidente na Exame. Siga-o no Instagram: @brunobcl e no LinkedIn